Andando
pelo meu caminho, já completamente fatigado de tudo me deparei com uma situação
meio que complicada... Nos últimos meses a tristeza agarrou-me como chiclete na
calça jeans, e assim como esse chiclete tentei de todas as formas tira-lo, mas
não havia jeito, acabou sobrando restos dele...
Antes
de tudo que se passa agora, me sinto na obrigação de contar o motivo dessa
tristeza e ela tem por nome, solidão.
Me
sinto solitário, refém dos meus sentimentos e das minhas angústias, tento ser
forte todos os dias pela manhã, mas o cansaço desse esforço se reflete em
noites deprimentes... Se me perguntassem há algum tempo atrás diria que é
impossível alguém viver triste todos os dias, que toda tristeza é passageira e tudo
daria certo quando menos esperasse, mas agora esse “impossível” tem o pior nome
que se poderia dar, “monotonia”. Com isso todos os dias eu andava
acordando e dormindo sem uma real
esperança de que algo iria melhorar.
Hoje
acordei estranhamente feliz, certo de que algo diferente iria acontecer. O café
requentado estranhamente parecia fresco e até parou de nevar, o inverno é minha
época favorita, mas é deprimente quando não se tem alguém para compartilhar o
calor nos dias frios. Olhei pela janela e, como nevou muito na noite anterior,
a garagem estava impossibilitada, resolvi então pegar o ônibus para o centro
para comprar algo, aproveitar e ver pessoas desconhecidas e imaginar nomes para
elas, paixões que elas já tiveram... Na saída, o cachorro do vizinho estava
latindo amigavelmente para mim em pé na cerca, pensando sobre o caso agora
posso até jurar que ele sorriu para mim. As crianças fazendo boneco de neve e
anjos na neve me trouxe aos tempos de criança e até cheguei a sorrir, mesmo
Allan, filho da Sra. Joana, que é uma
peste, nessa manhã pareceu tão inocente, incapaz de jogar as pedras que ele
normalmente joga na janela dos vizinhos.
Quando
cheguei no ponto de ônibus, ele chegou rápido como eu havia previsto e tive a
certeza que aquele dia seria diferente. No centro, o cinza monótono da cidade
não tirou a esperança de que algo diferente e talvez até bom me poderia em acontecer.
Sendo assim, segui pela Principal até uma loja de flores, lembrei de uma paixão
quando vi uma flor laranja, mas por esperar que tudo melhorasse resolvi deixar
o passado no passado e escolhi flores amarelas para alegrar a sala. Fui a uma
loja de chá e tomei um chá de camomila, pareceu mais água quente que chá, mas
imaginei que o motivo de lá está cheio de clientes era mais por causa dos tons
alegres e o calor do próprio ambiente.
Saí
da loja de chá e como forma de cortar caminho até o mercado e também para
deixar a monotonia de lado tomei por caminho um beco. No caminho um homem com
capuz puxou um revolve, não vi seu rosto nem entendi direito o que ele disse,
talvez pelo susto do momento e continuei parado como rocha. Ele deu um passo em
minha direção e talvez pelo nervosismo ele tropeçou e o gatilho foi puxado, sei
que não era proposital, pois momentos depois, quando estava no chão, ouvi de
longe a mesma voz que pediu a carteira pedindo por ajuda. Não faço a mínima
ideia quanto tempo se passou até que alguém apareceu, mas só as percebi quando
já estavam ao meu lado, uma do lado esquerdo usava uma camisa preta e um jeans
escuro meio destonado, mas com cara de que se poderia usar por um longo tempo;
e a outra do lado direito era só um borrão que com esforço consegui distinguir
como uma camisa amarela e calça jeans. A pessoa do lado esquerdo era
estranhamente fria e por alguma razão que desconheço tive muita alegria por ele
estar ali, até veio um louco desejo de abraça-lo. A pessoa do lado direito
balbuciava alguma coisa que não conseguia distinguir. A dor no meu peito estava
diminuindo, na verdade a cada minuto menos sentia meu corpo. O homem da
esquerda sorriu para mim um sorriso que há alguns minutos atrás teria ficado
deprimido, talvez até amedrontado, mas naquele momento foi o sorriso mais feliz
e sincero que já senti, tentei sorrir de volta, mas sinceramente, não sei se
meus lábios se abriram ou ficaram inertes como meu corpo estava ficando. O
homem da esquerda perguntou, com aquele mesmo sorriso no rosto, se eu queria descansar
uma voz grave e forte, uma voz que ecoou por todo o meu ser como se viesse de
dentro de mim e me pareceu estranhamente familiar, como se desde a infância até
aquele momento eu o conhecesse e o esperasse.
Naquele
momento eu o reconheci, tive a certeza de quem era. Fiquei horrorizado, mas
logo em seguida tive a certeza de estar sorrindo de volta pra ele não de
nervosismo, mas um sorriso feliz, como aquele que damos a alguém que nos
oferece o lugar no ônibus. Balancei a cabeça em sinal de afirmação e ele me
envolveu em um abraço, tão frio, mas tão delicioso que toda a tristeza passou,
toda a dúvida foi embora, todo medo e solidão passou... pra sempre.