terça-feira, 21 de julho de 2015

Solidão

Andando pelo meu caminho, já completamente fatigado de tudo me deparei com uma situação meio que complicada... Nos últimos meses a tristeza agarrou-me como chiclete na calça jeans, e assim como esse chiclete tentei de todas as formas tira-lo, mas não havia jeito, acabou sobrando restos dele...
Antes de tudo que se passa agora, me sinto na obrigação de contar o motivo dessa tristeza e ela tem por nome, solidão.
Me sinto solitário, refém dos meus sentimentos e das minhas angústias, tento ser forte todos os dias pela manhã, mas o cansaço desse esforço se reflete em noites deprimentes... Se me perguntassem há algum tempo atrás diria que é impossível alguém viver triste todos os dias, que toda tristeza é passageira e tudo daria certo quando menos esperasse, mas agora esse “impossível” tem o pior nome que se poderia dar, “monotonia”. Com isso todos os dias eu andava acordando  e dormindo sem uma real esperança de que algo iria melhorar.
Hoje acordei estranhamente feliz, certo de que algo diferente iria acontecer. O café requentado estranhamente parecia fresco e até parou de nevar, o inverno é minha época favorita, mas é deprimente quando não se tem alguém para compartilhar o calor nos dias frios. Olhei pela janela e, como nevou muito na noite anterior, a garagem estava impossibilitada, resolvi então pegar o ônibus para o centro para comprar algo, aproveitar e ver pessoas desconhecidas e imaginar nomes para elas, paixões que elas já tiveram... Na saída, o cachorro do vizinho estava latindo amigavelmente para mim em pé na cerca, pensando sobre o caso agora posso até jurar que ele sorriu para mim. As crianças fazendo boneco de neve e anjos na neve me trouxe aos tempos de criança e até cheguei a sorrir, mesmo Allan, filho  da Sra. Joana, que é uma peste, nessa manhã pareceu tão inocente, incapaz de jogar as pedras que ele normalmente joga na janela dos vizinhos.
Quando cheguei no ponto de ônibus, ele chegou rápido como eu havia previsto e tive a certeza que aquele dia seria diferente. No centro, o cinza monótono da cidade não tirou a esperança de que algo diferente e talvez até bom me poderia em acontecer. Sendo assim, segui pela Principal até uma loja de flores, lembrei de uma paixão quando vi uma flor laranja, mas por esperar que tudo melhorasse resolvi deixar o passado no passado e escolhi flores amarelas para alegrar a sala. Fui a uma loja de chá e tomei um chá de camomila, pareceu mais água quente que chá, mas imaginei que o motivo de lá está cheio de clientes era mais por causa dos tons alegres e o calor do próprio ambiente.
Saí da loja de chá e como forma de cortar caminho até o mercado e também para deixar a monotonia de lado tomei por caminho um beco. No caminho um homem com capuz puxou um revolve, não vi seu rosto nem entendi direito o que ele disse, talvez pelo susto do momento e continuei parado como rocha. Ele deu um passo em minha direção e talvez pelo nervosismo ele tropeçou e o gatilho foi puxado, sei que não era proposital, pois momentos depois, quando estava no chão, ouvi de longe a mesma voz que pediu a carteira pedindo por ajuda. Não faço a mínima ideia quanto tempo se passou até que alguém apareceu, mas só as percebi quando já estavam ao meu lado, uma do lado esquerdo usava uma camisa preta e um jeans escuro meio destonado, mas com cara de que se poderia usar por um longo tempo; e a outra do lado direito era só um borrão que com esforço consegui distinguir como uma camisa amarela e calça jeans. A pessoa do lado esquerdo era estranhamente fria e por alguma razão que desconheço tive muita alegria por ele estar ali, até veio um louco desejo de abraça-lo. A pessoa do lado direito balbuciava alguma coisa que não conseguia distinguir. A dor no meu peito estava diminuindo, na verdade a cada minuto menos sentia meu corpo. O homem da esquerda sorriu para mim um sorriso que há alguns minutos atrás teria ficado deprimido, talvez até amedrontado, mas naquele momento foi o sorriso mais feliz e sincero que já senti, tentei sorrir de volta, mas sinceramente, não sei se meus lábios se abriram ou ficaram inertes como meu corpo estava ficando. O homem da esquerda perguntou, com aquele mesmo sorriso no rosto, se eu queria descansar uma voz grave e forte, uma voz que ecoou por todo o meu ser como se viesse de dentro de mim e me pareceu estranhamente familiar, como se desde a infância até aquele momento eu o conhecesse e o esperasse.

Naquele momento eu o reconheci, tive a certeza de quem era. Fiquei horrorizado, mas logo em seguida tive a certeza de estar sorrindo de volta pra ele não de nervosismo, mas um sorriso feliz, como aquele que damos a alguém que nos oferece o lugar no ônibus. Balancei a cabeça em sinal de afirmação e ele me envolveu em um abraço, tão frio, mas tão delicioso que toda a tristeza passou, toda a dúvida foi embora, todo medo e solidão passou... pra sempre.